(Antes da quarta-feira de cinzas)
À sombra que não me alcança
mancho o sol
com o negro da esperança
domingo, 19 de fevereiro de 2012
sábado, 28 de janeiro de 2012
Haicai(zinho) do melancólico roubado
Cbta a oito graus
ARL sopra em meu ouvido...
...começo de novo depois do final
ARL sopra em meu ouvido...
...começo de novo depois do final
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Haicai (zinho) sujo a partir de um anúncio de "internet com cabine privativa"
Sentou
coçou
pegou
(com a colaboração anônima de ARL)
coçou
pegou
(com a colaboração anônima de ARL)
domingo, 14 de agosto de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Sonata para três cordas.
Sonata para três cordas.
As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Tropabana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mas do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram
L.C.
Há dez meses volto a este texto e não o termino nem o descarto. Poderia também completar: nem o começo propriamente. Há uma única desculpa para ele, na forma de uma frase com a qual sonhei e pretendia semeá-la no meio de algum parágrafo, de modo a não dar muito na vista que tudo que o que escrevia devia estar na conta exclusiva dessa frase. Ocorre que a frase, de tão clara e nítida, ofusca e apaga todo o resto, me inibe e minha timidez dá as suas dez mil voltas e fico em permanente estado de rascunho.
Viajando a Porto Alegre com minha filha, veio-me não sei que frio na barriga, um susto morno: todo um mundo desconhecido se abriu para mim passando pelo km 210 da BR 101. É o que costumam chamar “sul do estado”, um sul ao sul do meu sul, e a vertigem me vem da arraigada crença da infância, segundo a qual o mundo terminara em Joinville – meu último e único sul, a máxima distância ao sul de mim mesmo. Em direção a Porto Alegre, o caminho por terra me traz assombros de navegador português. É meu périplo africano. (Adio meu objetivo final: a República Oriental do Uruguay). Explico-me. Todas as minha viagens a Porto Alegre feitas de avião roubaram-me a paisagem que, sem que soubesse, existia como a testemunha muda de uma outra viagem; se o avião economiza tempo, ele dispensa o olhar. Não há paisagem para o avião. Salvo uma ou outra aeromoça – em tempos de low cost –, tudo se ressume ao encosto da poltrona da frente, com o anúncio de mais uma novidade inútil e cara. De carro ou de ônibus, não se têm apenas todo o mistério da paisagem mas também o tempo da paisagem. A paisagem é uma forma de experimentar a permanência. Eu fiquei na paisagem. E me perdi. Como sou mais ou menos rigoroso como meus maus hábitos, resisto um pouco as aventuras e assim resisti a esta viagem, com todos os medos justificáveis de quem pensa com os preconceitos da infância. Mas no último verão, de tantas promessas não cumpridas, resolvi cumprir uma tentando me esquecer das outras, e estava um pouco decidido – o que, no meu caso, equivale a muita decisão – amparado em todas as razões fantásticas de um navegante português.
Talvez houvesse um império a conquistar, um outro continente, minhas índias ocidentais, ao sul do meu ocidente.
Passando assim, ao sul do sul, alguma coisa muda repentinamente: e como se refugiando e abrindo um espaço vazio de si mesmo, a Serra do Mar se ausenta, e o que era antes obstáculo e impedimento, escarpa e adversidade, se desfaz e surge a paisagem de horizontes e águas, planos de espelho e planícies úmidas de uma ausência marcante, lagunas, lagoas e areias e arroios e “é como se reparasse que de repente se abrisse um espaço entre o cais e navio e vem-me, não sei por quê, uma angústia recente, uma névoa de sentimentos de tristeza que brilha ao sol das minhas angústias reveladas, como a primeira janela onde a madrugada bate, e me envolve como uma recordação duma outra pessoa que fosse misteriosamente minha”. Outra viagem faço pela paisagem, descobrindo nela o que em mim não é mais serra ou montanha.
Mas não é tudo, e, diante de toda a nova paisagem, minha frase, sempre presente, escapa de mim mesmo, escorrega pelos meus dedos e se estica no horizonte daquelas planícies.
Faltava-me não sei o quê. Precisava ainda de outro modo e lugar para encontrar o tempo daquela frase e dizê-la com todas as letras. Nessas operações, nada é simples: jantando com um conhecido descubro algo que jamais vira: um amigo. Moramos na mesma casa por quase um ano, mas os morros das Perdizes, a cidade encravada em um sistema de vales tão imperfeito, com rios ocultos e mortos, fuligem e apresadores de índios. Tudo me fazia outro Alexandre, acidentado, pedregoso, difícil de alcançar. A cidade entrava pela casa e separava os tamoios dos tupys, nativos de estrangeiros e a cidade vivia sua mais agudo paroxismo: é uma máquina de separar. Morro acima, morro abaixo não encontrava meu lugar de pouso, nem cárcere, nem lar. E de repente, ao falar-me de seus planos, lá, no sul do sul, no fundo do Parque Farroupilha, fim de tarde com sol e risos, alguma coisa se rearranjou repentinamente. E podeira dizer, era outro Pacola, um Pacola trabalhado pelo tempo. E eis minha frase, dita assim, de modo abrupto e, mesmo impreciso, no condicional. E noto o quanto de ilusão ela guarda em si, e quão problemáticos são os enunciados fundamentais. Porque, normalmente, estamos enganados. Talvez não fosse outro Pacola, um outro Igara Pacola, talvez não fosse o tempo. E não era. Era eu. Não tanto o tempo que trabalhou em mim, idas e vindas formando entre planície e planalto um rusga de terra imperfeita e irregular, mas, sim, a paisagem, eu mesmo visto numa carta náutica, velha e amarelada encrustado em restinga que se perde e some no meio da baía. Precisei de outra geografia, e trabalhado por outra paisagem, recolhi das distâncias o que ainda falta e não encontro em meus meandros. Descobri, enfim, não sei o quê trabalhado pelo espaço, pela paisagem, pelas marés, pelo vento, transcrito em uma cartografia imprecisa e que me diz, de todos os caminhos, “vá ao sul”, “para o sul do mundo”. E encontrei um amigo com quem morei anomimamente como um estranho eu mesmo e durante o jantar refiz as medidas dos todos meus acidentes geográficos.
Par les beaux soirs d'été, j'irais dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l'herbe menue:
rêveur, j'en sentirai la fraîcher à mês pieds:
Je laisserai le vent baigner ma tête nue...
Je ne parlerai pas, je ne penserai rien...
Mais un amour immense entrera dans mon âme:
Et j'irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - hereux comme avec une femme
A.R.
As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Tropabana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mas do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram
L.C.
Há dez meses volto a este texto e não o termino nem o descarto. Poderia também completar: nem o começo propriamente. Há uma única desculpa para ele, na forma de uma frase com a qual sonhei e pretendia semeá-la no meio de algum parágrafo, de modo a não dar muito na vista que tudo que o que escrevia devia estar na conta exclusiva dessa frase. Ocorre que a frase, de tão clara e nítida, ofusca e apaga todo o resto, me inibe e minha timidez dá as suas dez mil voltas e fico em permanente estado de rascunho.
Viajando a Porto Alegre com minha filha, veio-me não sei que frio na barriga, um susto morno: todo um mundo desconhecido se abriu para mim passando pelo km 210 da BR 101. É o que costumam chamar “sul do estado”, um sul ao sul do meu sul, e a vertigem me vem da arraigada crença da infância, segundo a qual o mundo terminara em Joinville – meu último e único sul, a máxima distância ao sul de mim mesmo. Em direção a Porto Alegre, o caminho por terra me traz assombros de navegador português. É meu périplo africano. (Adio meu objetivo final: a República Oriental do Uruguay). Explico-me. Todas as minha viagens a Porto Alegre feitas de avião roubaram-me a paisagem que, sem que soubesse, existia como a testemunha muda de uma outra viagem; se o avião economiza tempo, ele dispensa o olhar. Não há paisagem para o avião. Salvo uma ou outra aeromoça – em tempos de low cost –, tudo se ressume ao encosto da poltrona da frente, com o anúncio de mais uma novidade inútil e cara. De carro ou de ônibus, não se têm apenas todo o mistério da paisagem mas também o tempo da paisagem. A paisagem é uma forma de experimentar a permanência. Eu fiquei na paisagem. E me perdi. Como sou mais ou menos rigoroso como meus maus hábitos, resisto um pouco as aventuras e assim resisti a esta viagem, com todos os medos justificáveis de quem pensa com os preconceitos da infância. Mas no último verão, de tantas promessas não cumpridas, resolvi cumprir uma tentando me esquecer das outras, e estava um pouco decidido – o que, no meu caso, equivale a muita decisão – amparado em todas as razões fantásticas de um navegante português.
Talvez houvesse um império a conquistar, um outro continente, minhas índias ocidentais, ao sul do meu ocidente.
Passando assim, ao sul do sul, alguma coisa muda repentinamente: e como se refugiando e abrindo um espaço vazio de si mesmo, a Serra do Mar se ausenta, e o que era antes obstáculo e impedimento, escarpa e adversidade, se desfaz e surge a paisagem de horizontes e águas, planos de espelho e planícies úmidas de uma ausência marcante, lagunas, lagoas e areias e arroios e “é como se reparasse que de repente se abrisse um espaço entre o cais e navio e vem-me, não sei por quê, uma angústia recente, uma névoa de sentimentos de tristeza que brilha ao sol das minhas angústias reveladas, como a primeira janela onde a madrugada bate, e me envolve como uma recordação duma outra pessoa que fosse misteriosamente minha”. Outra viagem faço pela paisagem, descobrindo nela o que em mim não é mais serra ou montanha.
Mas não é tudo, e, diante de toda a nova paisagem, minha frase, sempre presente, escapa de mim mesmo, escorrega pelos meus dedos e se estica no horizonte daquelas planícies.
Faltava-me não sei o quê. Precisava ainda de outro modo e lugar para encontrar o tempo daquela frase e dizê-la com todas as letras. Nessas operações, nada é simples: jantando com um conhecido descubro algo que jamais vira: um amigo. Moramos na mesma casa por quase um ano, mas os morros das Perdizes, a cidade encravada em um sistema de vales tão imperfeito, com rios ocultos e mortos, fuligem e apresadores de índios. Tudo me fazia outro Alexandre, acidentado, pedregoso, difícil de alcançar. A cidade entrava pela casa e separava os tamoios dos tupys, nativos de estrangeiros e a cidade vivia sua mais agudo paroxismo: é uma máquina de separar. Morro acima, morro abaixo não encontrava meu lugar de pouso, nem cárcere, nem lar. E de repente, ao falar-me de seus planos, lá, no sul do sul, no fundo do Parque Farroupilha, fim de tarde com sol e risos, alguma coisa se rearranjou repentinamente. E podeira dizer, era outro Pacola, um Pacola trabalhado pelo tempo. E eis minha frase, dita assim, de modo abrupto e, mesmo impreciso, no condicional. E noto o quanto de ilusão ela guarda em si, e quão problemáticos são os enunciados fundamentais. Porque, normalmente, estamos enganados. Talvez não fosse outro Pacola, um outro Igara Pacola, talvez não fosse o tempo. E não era. Era eu. Não tanto o tempo que trabalhou em mim, idas e vindas formando entre planície e planalto um rusga de terra imperfeita e irregular, mas, sim, a paisagem, eu mesmo visto numa carta náutica, velha e amarelada encrustado em restinga que se perde e some no meio da baía. Precisei de outra geografia, e trabalhado por outra paisagem, recolhi das distâncias o que ainda falta e não encontro em meus meandros. Descobri, enfim, não sei o quê trabalhado pelo espaço, pela paisagem, pelas marés, pelo vento, transcrito em uma cartografia imprecisa e que me diz, de todos os caminhos, “vá ao sul”, “para o sul do mundo”. E encontrei um amigo com quem morei anomimamente como um estranho eu mesmo e durante o jantar refiz as medidas dos todos meus acidentes geográficos.
Par les beaux soirs d'été, j'irais dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l'herbe menue:
rêveur, j'en sentirai la fraîcher à mês pieds:
Je laisserai le vent baigner ma tête nue...
Je ne parlerai pas, je ne penserai rien...
Mais un amour immense entrera dans mon âme:
Et j'irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - hereux comme avec une femme
A.R.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Digressão sentimental acerca da privatização do sistema Telebrás - homenagem ao retorno da Telebrás
Ora, afinal a vida é um bruto romance e nós vivemos folhetins sem o saber”.
Sweet home, Carlos Drummond de Andrade.
Em algum dia de 1998 o presidente da Bolsa de Valores de São Paulo batia pela última vez o martelo. A última empresa desmembrada do antigo sistema Telebrás acabara de ser vendida. Entre 1997 e 1998, privatizando empresas de energia elétrica e telecomunicações, foi embolsado pelo Tesouro Nacional quarenta e um bilhões de dólares. Quatro consórcios estrangeiros financiados pelo BNDES – “e não verás país nenhum” – arremataram mais esse espólio da herança getulista – “A eletrobrás foi obstaculizada até o desespero(...) Ao ódio respondo com o perdão” – e do nacional desenvolvimentismo. Encerrado mais esse assunto, mesmo para os jornais, alguém se perguntaria se o que sobra a ser dito não é simplesmente falta de algum assunto, tagarelice. Vamos com calma. Antes de ser privatizado, o sistema submeteu-se a uma drástica correção de tarifas que atacou o usuário por todos os lados: reajuste nominal de tarifas, redução do tempo para faturamento do pulso telefônico, reajuste brutal da assinatura básica da linha telefônica. Desse modo, que se fale menos e que se fale baixo, mais do que isso incomoda.
O fato é que dois meses após tal privatização meu telefone branco aderiu a um silencio constrangedor. Não vou entrar nos detalhes e revelar publicamente meu déficit doméstico e minhas dificuldades de solvência, que, sendo de ordem privada, e eu, pessoa física, a ninguém interessa, salvo às estatísticas de inadimplência. Vou apenas descrever essa situação tão sem sentido quanto trivial: em débito, acabo descredenciado pelo sistema, assim reza o contrato: para mim, entretanto, os desdobramentos tiveram um alcance que não entra em nenhuma estatística. E uma vez que não conheço nem o presidente, nem o leiloeiro, sequer o presidente do BNDES, certamente não esperaria deles um telefonema a explicar-me o aumento de mais de cem por cento na tarifa telefônica, preparando, evidentemente, a empresa para os novos tempos (e que tempo são esses?) e para os novos donos. Aliás, uma vez que o deputado eleito com meu voto é de oposição (por definição) nem com ele interessaria, a esses senhores, uma conversa. Entretanto, se contasse que esperei em vão um telefonema, bem sabedor de quanto isso era vão, o que só se explica por conta da cegueira do amor, um telefonema tão aguardado quanto fora a urgência do negócio – e exigisse certos direitos não prescritos na letra da lei – o espanto seria geral. Sem medo do ridículo sigo em frente. Por que, poderia se perguntar o telespectador do jornal da noite, tais direitos teriam cabimento?; ao que responderia juntando uma coisa com a outra, isto é, as vicissitudes de um amor mal amado e a contribuição tucana para o capitalismo brasileiro – não muito mais que uma gigantesca privatização de riqueza e recomposição patrimonial – : meu tempo é o presente. O amor é cego, mudo e, em grande medida, burro. Neste caso, não é mal informado.
Nunca sendo pessoal esse tipo de retaliação, afinal, que planejamento sobreviveria a condescendências dessa ordem, só me restara esperar pelo impossível, no amor e na política, o que, por definição, não acontece. Como a mocinha não me ligou, como fiquei duas semanas em débito com a prestadora de serviço, como não ouvi mais sua voz, calaram-se para mim todos os telefones. (Todas as mulheres resumidas nos esboços de uma única, que outro chamado poderia me interessar? – o amor é uma linha permanentemente ocupada). Há ainda outro agravante: se o início conturbado (início?) do serviço privatizado funcionasse apenas contra mim: encontrou (será) conversa melhor em linha cruzada ou depois de ligação completada veio fatídica mensagem (bem gravada): esqueça esse senhor, seguiu o conselho. Não sendo pontual com meus deveres de usuário – mas não apenas eu, também a prestadora do serviço – perdi a boa oportunidade que no amor é essencial e crucial e nunca mais me curei da dor que é ser mal amado, tão pouco amado segundo os critérios de meu imenso coração: a isso também chamam fortuna. E custa-me acreditar que a Embratel, com seu imbatível sorriso feminino, não saiba o que é sofrer de amor – quando se perde a ilusão deve-se sepultar o coração.
***
Em 1961 Brasília é inaugurada. Uma parcela dos cronistas de fim de tarde, hoje associados a filósofos, jurisconsultos, diplomatas e intelectuais engajados, versados em muitas e variadas ciências, insistem, entre outras coisas, em culpar a audácia da sua construção nossas mazelas pretéritas e futuras ao mesmo tempo em que consideram as mazelas presentes pequenos desvios naturais contra o que pouco se pode fazer, senão retomar um velho programa: esclarecimento e boa vontade. É de supor, afinal, que não somos tão somente infelizes mas também obscurantistas e teimosos – mais outro efeito colateral de nosso atraso material. (Que se diga, enfim, que marxistas somos todos, eles, nós e os outros). Do mesmo modo, um pequeno clube de senhores esclarecidos insiste em afirmar e reiterar o inevitável efeito inflacionário de nosso desenvolvimentismo tropical ao mesmo tempo em que desprezam a “megalomania” de uma capital-monumento: não são, entretanto, as piores tolices que essa terra já produziu, ainda que desde sempre tivéramos, mais que qualquer outro, a boa disposição ao esclarecimento e a tenacidade da razão prática, seu sucedâneo: “enquanto na metrópole um espesso véu vitoriano ainda recobria o interesse nu e cru do pagamento em dinheiro, numa longínqua sociedade colonial a exploração prosperava a céu aberto, direta e seca”. Assim, “marca, em quimbundo, se diz Karimu. Karimbo era o ferrete oficial de prata ou ferro esquentado na brasa com que se marcavam os negros no momento do embarque, no ato de cobrança dos direitos de exportação. Daí as palavras carimbo e carimbar. Dessa sorte, o substantivo e o verbo – só usados na língua portuguesa no Brasil – definindo as hierarquias, o escopo da propriedade, a validade dos documentos, a autoridade pública exercida pelo Império e pela República brasileira, derivam do gesto, do instrumento que imprimia chancela legal ao comércio de humanos. Da palavra que situa o momento preciso de reificação do africano”.
Brasília foi e passou, o Brasil seguiu em direção ao oeste (hoje Brasília é o maior marco da arquitetura moderna), numa época que crescíamos a taxas de dez por cento ao ano, em média. Chega de Saudades. Passam-se duas décadas e o rosto do brasileiro esmaeceu-se num espelho opaco.
E se tudo fora um sonho, um sonho imenso, no Cerrado, no Planalto Central, sonho de um monumento ritmado e de um rosto feito de colagens geométricas – bossa nova, arte de vanguarda, e de repente, inteligência; sonhávamos dormindo em quê berço esplêndido?
P.S. de 16 de novembro de 1999.
Os jornais avisam que uma parte significativa dos quarenta e um bilhões que o estado brasileiro arrecadou com as privatizações vai retornar ao bolso dos compradores sob a forma de redução no pagamento do Imposto de Renda.
Um exemplo talvez ilumine essa “modernidade”: vejamos a privatização das rodovias. A empresa que oferece o menor pedágio no leilão ganhava a concessão, tendo como contrapartida a obrigação de modernizar e manter a rodovia. Nada de novo. Eis, contudo, a originalidade: reparos e manutenção vêm sendo financiados com empréstimos do BNDES a juros subsidiados. O que seria uma atividade de risco (portanto, eventual fonte de lucro) se transforma em fonte de renda.
Compare-se isso com a máfia de fiscais em São Paulo. Vereadores malufistas cobravam ilegalmente dos camelôs uma propina para permitir a ocupação irregular de um espaço público: as calçadas. O que no caso das rodovias é legal e mediado, aqui é ilegal e imediato. Para um homem de visão, um leilão “público” resolveria tudo, já previsto naturalmente um empréstimo subsidiado para a construção de “barraquinhas”.
Em tempos como esse o amor é negócio de sociedades anônimas (Que amor resiste a um ataque especulativo?).
P.S. de 01 de janeiro de 2000.
“Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
Imensa e contraída como letra no muro
E só hoje presente”.
P.S. de 07 de fevereiro de 2006.
“É preciso que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma graça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora”.
Sweet home, Carlos Drummond de Andrade.
Em algum dia de 1998 o presidente da Bolsa de Valores de São Paulo batia pela última vez o martelo. A última empresa desmembrada do antigo sistema Telebrás acabara de ser vendida. Entre 1997 e 1998, privatizando empresas de energia elétrica e telecomunicações, foi embolsado pelo Tesouro Nacional quarenta e um bilhões de dólares. Quatro consórcios estrangeiros financiados pelo BNDES – “e não verás país nenhum” – arremataram mais esse espólio da herança getulista – “A eletrobrás foi obstaculizada até o desespero(...) Ao ódio respondo com o perdão” – e do nacional desenvolvimentismo. Encerrado mais esse assunto, mesmo para os jornais, alguém se perguntaria se o que sobra a ser dito não é simplesmente falta de algum assunto, tagarelice. Vamos com calma. Antes de ser privatizado, o sistema submeteu-se a uma drástica correção de tarifas que atacou o usuário por todos os lados: reajuste nominal de tarifas, redução do tempo para faturamento do pulso telefônico, reajuste brutal da assinatura básica da linha telefônica. Desse modo, que se fale menos e que se fale baixo, mais do que isso incomoda.
O fato é que dois meses após tal privatização meu telefone branco aderiu a um silencio constrangedor. Não vou entrar nos detalhes e revelar publicamente meu déficit doméstico e minhas dificuldades de solvência, que, sendo de ordem privada, e eu, pessoa física, a ninguém interessa, salvo às estatísticas de inadimplência. Vou apenas descrever essa situação tão sem sentido quanto trivial: em débito, acabo descredenciado pelo sistema, assim reza o contrato: para mim, entretanto, os desdobramentos tiveram um alcance que não entra em nenhuma estatística. E uma vez que não conheço nem o presidente, nem o leiloeiro, sequer o presidente do BNDES, certamente não esperaria deles um telefonema a explicar-me o aumento de mais de cem por cento na tarifa telefônica, preparando, evidentemente, a empresa para os novos tempos (e que tempo são esses?) e para os novos donos. Aliás, uma vez que o deputado eleito com meu voto é de oposição (por definição) nem com ele interessaria, a esses senhores, uma conversa. Entretanto, se contasse que esperei em vão um telefonema, bem sabedor de quanto isso era vão, o que só se explica por conta da cegueira do amor, um telefonema tão aguardado quanto fora a urgência do negócio – e exigisse certos direitos não prescritos na letra da lei – o espanto seria geral. Sem medo do ridículo sigo em frente. Por que, poderia se perguntar o telespectador do jornal da noite, tais direitos teriam cabimento?; ao que responderia juntando uma coisa com a outra, isto é, as vicissitudes de um amor mal amado e a contribuição tucana para o capitalismo brasileiro – não muito mais que uma gigantesca privatização de riqueza e recomposição patrimonial – : meu tempo é o presente. O amor é cego, mudo e, em grande medida, burro. Neste caso, não é mal informado.
Nunca sendo pessoal esse tipo de retaliação, afinal, que planejamento sobreviveria a condescendências dessa ordem, só me restara esperar pelo impossível, no amor e na política, o que, por definição, não acontece. Como a mocinha não me ligou, como fiquei duas semanas em débito com a prestadora de serviço, como não ouvi mais sua voz, calaram-se para mim todos os telefones. (Todas as mulheres resumidas nos esboços de uma única, que outro chamado poderia me interessar? – o amor é uma linha permanentemente ocupada). Há ainda outro agravante: se o início conturbado (início?) do serviço privatizado funcionasse apenas contra mim: encontrou (será) conversa melhor em linha cruzada ou depois de ligação completada veio fatídica mensagem (bem gravada): esqueça esse senhor, seguiu o conselho. Não sendo pontual com meus deveres de usuário – mas não apenas eu, também a prestadora do serviço – perdi a boa oportunidade que no amor é essencial e crucial e nunca mais me curei da dor que é ser mal amado, tão pouco amado segundo os critérios de meu imenso coração: a isso também chamam fortuna. E custa-me acreditar que a Embratel, com seu imbatível sorriso feminino, não saiba o que é sofrer de amor – quando se perde a ilusão deve-se sepultar o coração.
***
Em 1961 Brasília é inaugurada. Uma parcela dos cronistas de fim de tarde, hoje associados a filósofos, jurisconsultos, diplomatas e intelectuais engajados, versados em muitas e variadas ciências, insistem, entre outras coisas, em culpar a audácia da sua construção nossas mazelas pretéritas e futuras ao mesmo tempo em que consideram as mazelas presentes pequenos desvios naturais contra o que pouco se pode fazer, senão retomar um velho programa: esclarecimento e boa vontade. É de supor, afinal, que não somos tão somente infelizes mas também obscurantistas e teimosos – mais outro efeito colateral de nosso atraso material. (Que se diga, enfim, que marxistas somos todos, eles, nós e os outros). Do mesmo modo, um pequeno clube de senhores esclarecidos insiste em afirmar e reiterar o inevitável efeito inflacionário de nosso desenvolvimentismo tropical ao mesmo tempo em que desprezam a “megalomania” de uma capital-monumento: não são, entretanto, as piores tolices que essa terra já produziu, ainda que desde sempre tivéramos, mais que qualquer outro, a boa disposição ao esclarecimento e a tenacidade da razão prática, seu sucedâneo: “enquanto na metrópole um espesso véu vitoriano ainda recobria o interesse nu e cru do pagamento em dinheiro, numa longínqua sociedade colonial a exploração prosperava a céu aberto, direta e seca”. Assim, “marca, em quimbundo, se diz Karimu. Karimbo era o ferrete oficial de prata ou ferro esquentado na brasa com que se marcavam os negros no momento do embarque, no ato de cobrança dos direitos de exportação. Daí as palavras carimbo e carimbar. Dessa sorte, o substantivo e o verbo – só usados na língua portuguesa no Brasil – definindo as hierarquias, o escopo da propriedade, a validade dos documentos, a autoridade pública exercida pelo Império e pela República brasileira, derivam do gesto, do instrumento que imprimia chancela legal ao comércio de humanos. Da palavra que situa o momento preciso de reificação do africano”.
Brasília foi e passou, o Brasil seguiu em direção ao oeste (hoje Brasília é o maior marco da arquitetura moderna), numa época que crescíamos a taxas de dez por cento ao ano, em média. Chega de Saudades. Passam-se duas décadas e o rosto do brasileiro esmaeceu-se num espelho opaco.
E se tudo fora um sonho, um sonho imenso, no Cerrado, no Planalto Central, sonho de um monumento ritmado e de um rosto feito de colagens geométricas – bossa nova, arte de vanguarda, e de repente, inteligência; sonhávamos dormindo em quê berço esplêndido?
P.S. de 16 de novembro de 1999.
Os jornais avisam que uma parte significativa dos quarenta e um bilhões que o estado brasileiro arrecadou com as privatizações vai retornar ao bolso dos compradores sob a forma de redução no pagamento do Imposto de Renda.
Um exemplo talvez ilumine essa “modernidade”: vejamos a privatização das rodovias. A empresa que oferece o menor pedágio no leilão ganhava a concessão, tendo como contrapartida a obrigação de modernizar e manter a rodovia. Nada de novo. Eis, contudo, a originalidade: reparos e manutenção vêm sendo financiados com empréstimos do BNDES a juros subsidiados. O que seria uma atividade de risco (portanto, eventual fonte de lucro) se transforma em fonte de renda.
Compare-se isso com a máfia de fiscais em São Paulo. Vereadores malufistas cobravam ilegalmente dos camelôs uma propina para permitir a ocupação irregular de um espaço público: as calçadas. O que no caso das rodovias é legal e mediado, aqui é ilegal e imediato. Para um homem de visão, um leilão “público” resolveria tudo, já previsto naturalmente um empréstimo subsidiado para a construção de “barraquinhas”.
Em tempos como esse o amor é negócio de sociedades anônimas (Que amor resiste a um ataque especulativo?).
P.S. de 01 de janeiro de 2000.
“Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
Imensa e contraída como letra no muro
E só hoje presente”.
P.S. de 07 de fevereiro de 2006.
“É preciso que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma graça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora”.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Jean-Pierre Léaud: ator alucinado, por François Truffaut (trad. AOTC)

Há aqueles que amam a fantasia, há os que a detestam. Entre aqueles que detestam a fantasia, há os que fingem amar o cinema. Mas, se são questionados, você logo se dá conta que eles amam, sobretudo, o cinema documentário, aquele que é tão chato quanto as conferências dos exploradores na Sala Pleyel. Os que se afeiçoam ao documentário, se dignam, às vezes, ir ver ficção, mas logo se percebe que seu gosto os leva em direção as histórias realistas, bem situadas geograficamente, historicamente, sociologicamente. Como por acaso, essas histórias são frequentementes interpretadas por atores corpulentos, bem confiáveis já que seu peso os desculpa do que se poderia supor de leviano e ligeiro em atuar, segundo o espírito do público. Ninguém jamais critica esses atores pesados, sempre plausíveis como donos de bar, taxistas, funcionários públicos. Os fanáticos do verossímil concentram suas críticas nos atores magros, de bochechas vazias, descabelados, os atores bressonianos que sua timidez faz com que se exprimam como ventríloquos dolorosos. Contrariamente aos gordos bem situados, os atores magros não dissimulam seu medo nem um ligeiro tremor na voz, não são domadores, são indomáveis. Qual tentação se oferece, então, aos capachos que se tomam por leões de morder o calcanhar desses atores sonâmbulos!
Acabo de fazer o retrato de Jean-Pierre Léaud e de explicar por que ele não agrada a todo mundo e por que ele agrada tanto àqueles que ele agrada. Jean-Pierre Léaud é um ator anti-documentário, mesmo quando ele diz um simples 'bom dia', já mergulhamos na ficção, para não dizer na ficção científica. Antes da guerra, o público de quem a ouvido ainda não havia sido banalizado pela televisão, apreciava os atores especiais, de dicção marcante: adoravam o sotaque romeno de Popesco, os arrancos asmáticos de Louis Jouvet, a veemência alucinada de Robert Le Vigam.
Alucinado, a palavra é fraca. Jean-Pierre, filho natural de Goupi Tonkin, também secreta a plausabilidade e a verossimilhança, mas seu realismo é aquele dos sonhos.
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