sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Treze teses contra os eruditos e contra a erudição.


Dois milhões de habitantes!
e nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne

C.D.A., A bruxa.


Treze teses contra os eruditos e contra a erudição.

  1. A erudição é o estoicismo dos proprietários. Os proprietários dispensam o presente com o argumento de autoridade – ad verecundum – é meu.
  2. Os proprietários têm uma história que termina no passado, um presente que começa no céu das idéias; só a eles é permitida a forma ideal de possessão.
  3. Pensar por antecipação: cartada. O blefe é a aposta n(d)o real.
  4. A erudição é delírio sem atualidade (O delírio é amor à atualidade, às avessas.)
  5. A erudição olha para suas costas como se olhasse para sua frente: não lê o futuro no passado, mas o presente na presença do passado; exige de si inconsciência disso – seu presente é déjà vu (“...uma leitura tão armada que desarma qualquer olhar de leitor. Esqueço o que outros disseram para lembrar o que preciso dizer”)
  6. A aposta é amor mágico ao instante (que amor não é misticismo deliberado?)
  7. A autoridade do erudito é fundada no medo do saber; mais, no medo que o saber nos salvará; mais, no medo de jamais sermos salvos pelo saber.
  8. Filósofo ignorante: não recusa o saber, mas ri do próprio saber – nada é sério afora o agora.
  9. A erudição é o escólio da não atualidade.
  10. O real inventa apostas possíveis e paga para ver.
  11. (O detalhe é a forma possível do imponderável – e deus está nos detalhes e o diabo anda solto no canteiro de obras – o detalhe é o maior tempo no menor espaço.)
  12. O agora, armas em mãos: o pássaro na gaveta, a experiência moderna. A erudição guarda o pássaro na gaveta da memória; o agora dá asas ao impossível (e ao possível).
  13. Em face dos últimos acontecimentos: oh, sejamos pornográficos.


Treze teses contra as evidências do cotidiano e a metafísica segundo a forma de previsão do tempo (nulla dies sine linea).

Originalidade é tentar fazer como os outros e não conseguir.”
Pseudo Jean-Luc Goddard.

  1. As previsões para o tempo do agora são o sonho de um agora sem tempo
  2. A mitologia do agora: o instante é a imaginação de um tempo sem passado.
  3. A verdade de amanhã não é a verdade de hoje, mas verdade do tempo – o fundamento do jornal diário é o esquecimento como má-fé.
  4. A pornografia é o retrato de mulher sem rosto – seu corpo não presta contas a ninguém.
  5. O eterno feminino é o corpo sob a forma da erudição; ser mulher, por si só, é ofício letrado: para cada gesto, cada detalhe, cada suspiro, um nome não basta – para cada movimento um verbete de enciclopédia. Cada detalhe de mulher é história universal em enciclopédia sistemática.
  6. A melancolia é a palma severa do instante: o melancólico aguarda a vida nos detalhes – a vida prescinde dos detalhes.
  7. A leitura do jornal diário é a prece da manhã realista: o leitor inventa os fatos, a leitura são os fatos transformados em história – cada instante lido é história despertada.
  8. A arte médica transubstancia o instante do sintoma em história da doença.
  9. Palabras, palabras desplazadas y mutiladas, palabras de otros, fue la pobre limosna que le dejaron las horas y los siglos”.
  10. O fundamento do juízo é sempre outro juízo, nunca os fatos. A crítica não julga o que são os outros, mas aquilo que eles dizem sobre o que são e sobre o que nós devemos ser. O crítico não se interessa pelos fatos, mas pela versão corrente dos fatos. O juízo é história condensada numa fórmula.
  11. O rosto de mulher é a fortaleza, é o limite lógico que demarca a imagem pornográfica: em um olhar que se reflete em outro, o sexo deixa de ser anônimo para tornar-se pessoal e intransferível.
  12. A pornografia é o outro visto sem que ele possa ver-se. Na pornografia não há personalidades, apenas sociedades anônimas.
  13. A verdadeira pornografia não revela, oculta (na luta vã dos corpos, os rostos ausentam-se).

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Jeanne Moreau, sorridente e doce, François Trauffaut.


Jeanne Moreau – sorridente e doce, segundo François Trauffaut (trad. AOTC)


A mulher é apaixonada, a atriz, apaixonante. Cada vez que te imagino à distancia, não a vejo lendo um jornal, mas um livro, pois Jeanne Moreau não me faz pensar no flerte, me faz pensar no amor.

Ao oposto de tantos atores e atrizes que não conseguem representar senão pelo conflito e pela tensão, a ponto de confundir concentração com os campos de sinistra memória, Jeanne Moreau só está à vontade em um ambiente de trabalho sorridente e doce, que ele contribui a criar e que ela ajuda a preservar, mesmo quando se trata de projetar emoções fortes.

Generosidade, ardor, cumplicidade, compreensão da fragilidade humana, tudo pode se ler na tela quando Jeanne Moreau atua.

De dentro de meus vinte anos de cinema, a filmagem de Jules e Jim, graças a Jeanne Moreau, permanece uma lembrança luminosa, a mais luminosa.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

As duas inglesas e o continente





As duas inglesas e o continente



As duas inglesas e o continente. (Na versão brasileira: As duas inglesas e o amor)

Houve um tempo em que havia romances, não só escritos. E quem não se lembraria do último romance lido (havia um tempo em que se liam romances) quando se depara com a primeira seqüência do filme de Trauffaut – As duas inglesas e o continente, François Trauffaut, 1971 ? Lá , ao abrir a primeira página, quebrando a lombada, e violando o acomodado recolhimento do volume, descobrimos (rememoramos) aquele vago frescor de uma história do século XIX, o encanto de um aventura, e a aventura de um ou vários amores – o amor, seja como for, é o amor. Mas não é só isso. Pode-se dizer facilmente que o filme de Truffaut se abre como quem abre um grande romance: por detrás da capa da Colection Blanche da NRF, Les deux anglaises et le continent, Henri-Pierre Roché, Trauffaut não filma apenas uma história, ele filma também a delicada emoção de quem filma uma história. A história está lá: não apenas a apresentação dos protagonistas à maneira de Balzac, por exemplo, há também os cortes em capítulos, na forma especial de fade in/fade out que marca a passagem de um episódio a outro, estruturando o desenrolar da trama.
Diante disso, caberia, agora sim, uma primeira pergunta:
quem é Claude, quem é Bertrant, quem é Jules, quem é Jim, quem é Henri-Pierre Roché, quem é Jean Pierre Léaud? Quem é, afinal, François Trauffaut? Estão lá desde o início, como a promessa de que uma utopia amorosa será enfim cumprida. Todos, tantas variações possíveis de Trauffaut e seu artesanato, de se fazer amado e amante, mas de uma maneira de tal modo precisa e certeira que se permite passar ao largo da inveja masculina – mais comum do que se imagina – e do desprezo feminino – normalmente irremediável. Diria, qual o segredo desse artesanato sentimental, para nos aproximarmos ainda mais do assunto e do filme?, mas tudo, nesse caso, é pouco para entender o quanto de todo sentimento o amor à gelatina de prata em 35mm pode conter e expressar: amor pelo cinema na exata medida do amor pelo amor, quem sabe. Este é Trauffaut. A frase é forte e merece correção: é este o Truffaut que se deixa imaginar. Todos os heróis de Trauffaut estão irmanados no esforço de pensar o que podemos simplesmente chamar de as inconstâncias do coração (e abro e fecho um parênteses para Antoine Doinel, que cabe menção mas não tratamento aqui, já que em seu caso, toda uma enciclopédia sentimental não basta). E todos “cavaleurs” tímidos, cafastestes transcendentais, mulherengos líricos, hommes à femmes vorazes e afetivos, e todos delicados em seus respectivos imensos corações. E não se falava de utopia, afinal de contas? Que o mesmo se diga, entre parênteses, para as suas heroínas, todas determinadas e tenazes como as heroínas de Sthendal, para quem o exercício da liberdade reinventa e completa o exercício de ser simplesmente quem é, quando se ama.
Voltemos a esta constelação de heróis tão improváveis: tão absurdamente apaixonados por todas, tão absurdamente sinceros, tão cuidadosos às variações do coração, que surpreendem a nós, submetidos ao escasso regime do real, o quanto pode um coração, antes que estale.
Essas divagações românticas, porém, são tão anacrônicas, tão fora de propósito que merecem uma explicação. E lá vem os burocratas de plantão, aqueles mesmo que mandam a mesma carta de amor para todas as namoradas, a reclamar de tanto coração, de tanto sentimento, de tanto romance do século XIX, em nosso mundo tão século XXI. Que sentido ainda teria um “coração sentimental” no apogeu dessa falta de graça?
Ainda sim, vou ao ponto: duas inglesas e o continente (Les deux anglaise et le continent, 1971, François Truffaut). O amor não é planeta habitado ou inabitado, não é galáxia distante, território ocupado em Marte, ou quarto de recreação na Estação Espacial Internacional. É continente permanentemente inexplorado, por mais que sobrem “terra à vista” a quem supõe lhe avistar do tombadilho. E paradoxalmente território submetido a mais cruenta das explorações, sujeito a imensa pressão predatória, a última fronteira natural da imaginação. O amor, seja como for (mais uma vez) é o amor, mas aqui não tão simplesmente amor: é o continente amoroso e história de amor que se alcança pelo mar do norte tanto quanto uma ilha que se torna continente – todos os lugares do mundo resumidos em um pedaço sem graça da mais fria e cinza praia no País de Gales. Mais uma das típicas inversões que a idade do amor permite. Logo, não são apenas as duas inglesas que descobrem o continente do amor. Também o jovem continental, muito francês, mas fantástico a maneira fantástica de um Léaud, como se espera, descobre o amor à ilha e leva-o para o continente. Não amor das ninfas da ilha enamorada, ou de alguma ilha mítica a meio caminho de Ítaca, caso algum mito ainda perdure; mas o amor de irmãs, o amor às irmãs, o amor de amantes e o amor das amantes, e de irmãs que fazem às vezes de amantes e são amadas, às vezes como irmãs, às vezes como amantes. E o amor dos homens também, à maneira dos homens e à maneira de homem, sempre meio aborrecidos. A primeira lição da idade adulta não é aquele que sem maneiras nos informa que o amor acaba. E descobrir que, afinal, envelhecemos. E tudo acaba.
Este filme, romance de formação sentimental das inglesas, Anne e Muriel, e de Claude, começa e se desenvolve como se fosse um romance clássico do XIX, e ficamos entre Sthendal e Balzac, imaginando o dia que Léaud será Lucien de Rubempré. Mas não se trata apenas disso. Há também, na mera história romântica do século XIX, algo de vivamente contemporâneo e não conformista, algo que ainda podia ser dito como se fora palavra de ordem: ainda há vida antes da morte. Pois lá, os pendores do coração, os desassossegos da alma e do corpo, o sublime que nos escapa entre as mãos, as vontades irracionais e inofensivas, lá, digo, tudo é legítimo, sem receita médica, mantra oriental ou conselho de programa vespertino. Lá, entre o amor e o canal da Mancha, a vida ainda pode ser vivida.
A meio caminho, entre “Jules e Jim” (1961), inventivo e invenção da crista da nova onda, avant guard em vários sentidos, e ainda com a presença magnética de uma Jeanne Moureau sublime, e “O homem que amava as mulheres” (1977), aparentemente mais convencional no tratamento de um tema não convencional, mais “hitchcteano” que literário; “As duas inglesas e o continente” revela o meticuloso tratamento de um filme a uma narrativa de formação sentimental, a partir de um trio, Anne, Muriel e Claude, com a delicadeza de quem olha o mistério do sentimento por dentro, por dentro de si e por dentro do outro.
Sem nenhum recurso excepcional, sem nenhuma invenção surpreendente, Trauffaut vai intercalando à narrativa romanesca, à ação no seu sentido mais lato, profundas digressões ou comentários narrativos – o que lembra em algo o procedimento narrativo do filme que fez com Goddard antes de fama e Cannes, na ocasião da última grande enchente de Paris – que não são simplesmente ilustração da história e da ação propriamente dita, mas a própria história contada pela imagem da história, na medida em que a digressão é o próprio sentimento e o sentimento é uma forma sofisticada de digressão à vida. A história é sempre e desde sempre história sentimental: do conhecimento de Anne, por sob um véu que, ao revelá-la aos poucos, revela o segredo de tudo que é sentido e amado e de tudo que será, já ali, no que é. Esse mesmo olhar que volta inúmeras vezes, em vários contextos e situações, lembrando que a calidez de Anne é a da própria história. Revela também que o amado e o sentido podem vir aos poucos, e sem precisão, como a foto de Muriel, com seu olhar “selvagem”, e eis os dois olhares, no início do filme que marcam o formam o olhar de Claude. O continente aprende a ver com as ilhas. Nem só de olhar de ressaca, com sua vaga negra, funda e destruidora, vive o regime natural do amor. Pode também ser maré cheia, que vem subindo, tomando todo o espaço da planície do coração, uma maré lenta e definitiva, que transforma em mar a terra firme, e aí, navegar é preciso. O amor, seja como for, é o amor (de novo !?). Esse detalhe, presente na feitura do filme, de tão simples, é supreendente: do recorte para a apresentação de Anne sob o véu, - quem é aquela, logo ali, na sala de minha casa - do “beijo de freira”, já no país de gales, em que a música destaca a cena do prosaísmo de origem da brincadeira, dando-lhe uma dimensão única; do longo plano seqüência no lago suíço, a partir do lago, tendo como fundo as margens, tomando o chalé em que Claude e Anne terão sua primeira noite, o ponto zero de um eixo de abcissas e coordenadas sentimentais, que de algum modo orientará toda a vida. A digressão é o solo narrativo, por excelência, de “Duas inglesas e o continente” e ao intercalar a “história” e a imagem que a própria história destaca de si, mostra que a história de um coração é tão elíptica, tão tortuosa, tão cheia de meandros que... quase não é história.
E a história fica por aqui, porque dela mais não conto. Está tudo no filme, para ser visto e revisto. Para encerrar, lembro a cena final, marcante e melancólica: é Claude, ao ver seu reflexo no vidro do carro: envelheci. E poderia completar: o direito a velhice só deveria valer para os que viveram. E são tão poucos os que vivem.


As Duas Inglesas e o Amor/Les Deux Anglaises et le Continent
De François Truffaut, França, 1971
Com Jean-Pierre Léaud, Kika Markham, Stacey Tendeter, Marie Mansard, Sylvia Marriott
Adaptação e diálogos François Truffaut e Jean Gruault
Baseado no romance de Henri-Pierre Roché
Fotografia Nestor Almendros
Música Georges Delerue
Produção Les Films de Carrosse
Cor, 130 minutos (versão original do diretor), 116 minutos (versão exibida na França), 108 minutos (versão exibida nos EUA)
R, ***1/2
Título em Portugal: As Duas Inglesas e o Continente; em inglês, Two English Girls.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Um boi vê os homens

Juriti vermelha III

Sempre me pergunto se quando durmo imagino, como se para além do sonho, na realidade irreal de quem sonha, houvera outro sonho a ser sonhado. Será, afinal o sonho a secreta câmara de combustão de um mundo autônomo das imagens ou, justo oposto, seu efeito mais maravilhoso? Há mistérios imensos para mim que vejo pouco o que vejo para muito ver o que não se vê; (já não poderia dizer o que acaso não vejo porque isso é o fulcro desse pequeno enigma, vejo o que não há e havendo ou não, não me importo.) Porquanto, por conta dessa falsa faculdade meus dias seguem orientação diversa: olho para ti, e se te amo; e poderia muito facilmente te amar, amo-te para além de ti, e finalmente, não sei quem amo, ainda que saiba que você, em pé a me olhar tem um corpo cuja silhueta é remédio e doença de quem vive a imaginar. (E são tantas as tardes que já passei contigo, na cama havia lençóis desfeitos por movimentos sugeridos e passeamos em tardes de sol de mãos dadas ou passearíamos depois de levantarmo-nos e teu rosto, fosse como fosse, seria claro – não há tempo para coordenar as minhas imagens que são tuas, mas há, devo dizer, o tempo de agora da imagem, e o tempo presente em que te vejo para te ver não depois, mas tão já depois, de ti, tu a me abraçar, ainda que não me abrace.) Meu remédio és tu que me pões a imaginar desde as primeiras camadas de um mundo que se sonha, acordado ou não, e cujas variações primárias são geográficas e pictóricas, - teus olhos ficam ligeiramente amendoados ainda que continuem pequenos e amorosos e há mesmo, em você, bruscas variações de cor que espantam e admiram – até as profundas variações em cujas palavras ditas são outras, todas completamente outras, e suponho estar imaginando em outra língua, numa sintaxe sem correspondência – o que se compreende, afinal: amando que mistério é maior que o amor por esse outro, singular e inofensivo; sua língua não se deve compreender – e tem-se a vaga sensação de dizer algo que quase se compreende e não se entende, e desde o início sabe-se que não há, sobre esse assunto, humana compreensão. Entretanto, és sempre tu e sempre és tu e não outro, mesmo as mais estranhas palavras, na tua boca, nunca noutra. (Agora te abraço e ficamos calados, sem entender palavras que o amor não entende)
Mas não amo só ou não só devia amar.
Pela cidade há imensos reservatórios de imagens, em ruas movimentadas e desertas, em carros estacionados, em pequenas praças de passagem. Livre, entretanto, para não só esperar imaginando (mas imaginar esperando) poderia também esperar por outros tempos – e atravessei o calçadão, havia por baixo da voz rouca de contas e negociações, de ofertas de compra e venda, o rumor mais humano da cidade, ainda que rebaixado, modesto, incompreensível, lasso; sugeria-me caminhos (eu prestes a imaginá-los), paradas para o café, olhares desatentos. Somos todos nós que passamos por ali e era preciso notar-nos, contemplar-nos e o tempo era de urgências. Andava e em meu irmão havia um olhar sério conformando seu rosto a um conjunto quase infinito de problemas universais, e mais belo permanecia seu olhar nesse estado de coisas, que já não era só dele, vinha de meu pai, atravessara a península ibérica com o pai de meu pai em um caminho de maldades e desencontros, e estava ali. Era testemunha delicada que também eu estava pronto, o mesmo sangue repartido em vários corpos, purificado pelas viagens e estável, imóvel só nele, no rosto claro e anguloso, no olhar de pai estranhamente repetido; e olhávamos, olhávamos e bastava para que dissesse: vamos. E fomos. No fim de uma galeria sentamos calados e despreocupados. Vi que passavas, não eras tu, era outra – tinha um andar preciso encoberto pela meia calça e marcado por uns tais sapatos que se faziam notar – e essa outra te trazias como uma sombra secreta, e não sorrias para mim, nem sorriria, estando, entretanto, lá, como que pronta para um dia sorrir. Sorri, eu, sem mover o rosto, imaginando sorrir para alguém que ausente pudesse ser encontrado antes que encerre todas minhas as tarefas. Quando apareceste e finalmente me sorriu, disperso por tanta espera custei a devolver-lhe o sorriso, mas devolvendo-lhe dei-lhe mais, sem o saber, e tudo tu merecias, “o amor é a única razão da vida”.Ainda que não fosse, imaginaria que fosse, e foste tu, e foste todo o amor.
Entretanto, há dias que passam de outro modo. Tão pouco e pequeno. Não porque se ande apressado ou se reserve o olhar para tarefas precisas. Mas porque no turbilhão das obrigações e dos constrangimentos cotidianos só se conta com um mundo morno, repleto de verdades provisórias, suportavelmente falíveis.
Por entre os carros alguém fugia, havia uma peça de roupa marrom, um espelho de mulher e uma mulher. Encontram-se, os traços do rosto alteram-se, há suspiros e ais. Mas não há pessoas. Vejo outras formas e coisas mais imprecisas do que se imaginaria, se se imaginasse. (Eu que sempre estou a imaginar e a perder-me em imagens que não me redimem).
Apenas me conforto na mais profunda mentira de mim mesmo, apenas a contemplo com clareza e carinho, uma mentira que me fizesse outro e me fizesse finalmente voar.
Passo, presto, passarinho.

Juriti vermelha (segunda versão)

Felicidade não se escreve. Ainda que seja assunto polêmico e de vasta bibliografia. Os motivos são óbvios e limitam-se aos problemas de princípio que uma simples pergunta pela definição sugere: o que é felicidade? Presto e está dado o ponto de partida para intermináveis digressões que a medida que a vida passa tornam-se mais e mais eruditas. Sim, felicidade é questão de erudição, tal como a própria vida – sem a pretensão do exagero. (Notem quantos livros e fórmulas mágicas e simpatias infalíveis trazem em si esse dado fora de circulação: como viver?; e quantos programas televisivos acalmam os telespectadores da tarde, assegurando a felicidade para logo mais, à noite?) Entretanto, crê-se ser possível enumerar um ou dois argumentos que validem esse ponto de vista (acerca da felicidade e, por extensão, da vida e seu caráter despropositado): havendo alguém feliz, real ou ilusoriamente, pouco importa, o que se observa é que não há meios que tornem isso, esta estranha sensação confusa e efusiva, objetiva (minha espécie, faz muito, perdeu a compreensão disso). Alerta-se que não se pretende que a felicidade ou qualquer um dos seus correlatos sejam cambiáveis – asseguro, de resto, não pretender ser feliz; apenas pôr a prova sua comunicabilidade. E lá vêm os felizes com receio de, além disso, serem incompreendidos – dupla adjetivação muito perigosa – organizados em partidos, fazendo palestras, vendendo vídeos e sobretudo nos apresentando razões sempre mais e mais inverossímeis (uma reconciliação improvável, um encontro inesperado, conforto material assegurado ou simplesmente um sem motivo gratuito e surpreendente) para a verdade de sua felicidade. O fulcro dessa impossibilidade, segundo se crê, é justamente a idéia de sensação. A tradição assegura um lugar pouco confortável para esse conceito que pretende apreender aquilo que não é conceito. Pois bem, o que é sensação? Com que substância se preenche a palavra enunciada? Sensação é...excitação da sensibilidade, é ativação da parafernália psicofísica, é calor, fome, frio, é...quem sabe felicidade sentida, a única que interessa. Mas se dissesse que sensação é o vermelho dentro de nós quando ainda está fora – vermelho tão vermelho mesmo que ausente –, ririam de mim, não me entenderiam e seria estranhamente cômica a comunicação. Daí concluo minha premissa: felicidade não se escreve, e logo, tão logo, não se a entenderá, nem palavra, nem substância que a palavra pressupõe. E será necessário um imenso esforço intelectual e coletivo – em seminários, grupos de estudos e centros de pesquisa, financiamento público e atenção da comunidade internacional – para compreender o que perdeu instantaneamente e de maneira irremediável a atualidade.
Nada mais contrária a isso que a infelicidade. Não me entendam mal. Não é a simples oposição que lhe garante a clareza: é a diferença de natureza que lhe garante a oposição. Assim nada mais determinável, factível, exato e preciso que a infelicidade que porta aquele rosto conhecido que o acaso, por vezes, traz-nos. (E a infelicidade incontornável de depararmo-nos diante dele – o rosto – e de sua presença absoluta, indesejável e familiar, inferirmos indefesos nossa modesta participação na infelicidade, numa infelicidade maior que nós e nossos cuidados.) Ou a mágica infelicidade que certas palavras trazem em si, como bandeiras da própria desgraça: que ser sensível e inteligente diria “atenção” sem a desagradável sensação de que deveria estar onde não está porque não quer lá estar? E como compreender, sem uma infeliz constatação, a mágica coerção dessa palavra? Amor. E “amor”? O que segue essa pobre palavra, resumo de esperanças e maldições, senão o desespero indiferente de sequer fazer parte do seu círculo de iniciados. “É o amor”, diria apenas aquele que, olhando ao longe, está certo de não o alcançar. “É o amor”, digo pacientemente. Mas que amor, sendo ou não verdadeiro, não vale bem uma infelicidade? O amor feliz e infeliz não cabe num só verbete (é “coxa, fúria, cabala”). O amor, não.
Infelicidade é táctil, presente, inconfundível. Desdobra-se em infinitos e precisos modos singulares, um olhar, um gosto, um cheiro. Sua gramática precisa nos põe a salvo das confusões de um mundo feliz, que de tão confuso, sequer imagina-se. Infelizes, afinal, não há como não nos entendermos.
( – De resto asseguro não pretender ser feliz).