Presente.
o que ganhei
des
cubro.
sexta-feira, 29 de março de 2013
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
O adversário.
![]() |
| Busto do Minotauro, Museu Arqueológico Nacional de Atenas. |
un exemple plus frappant de la force insensible
et puissante qu'ont ces courants de la paission et par lequels l'amoureuse,
comme un nageur entraîné sans s'en apercevoir, bien vite perd de vue la terre.
Sans doute l'amour d'un homme normal peut aussi, quand l'amoureux par l'invention sucessive de ses désirs, de
ses regrets, de ses déceptions, de ces projets, construit tout un roman sur une
femme qu'il ne connaît pas, permettre de mesurer un assez notable écartement de
deux branches de compas
Sodome & Gomorrhe, MP
Um
outro que imagino me vendo da plataforma, o imagino vivaz, ágil, voraz mesmo.
Inapreensível talvez, caminhando de um para outro lado, com a agenda cheia de
compromissos inadiáveis. Não me atrevo a olhar muito no metrô, não quero ver, prefiro ser olhado
ou imaginar que uns outros me vejam, resignado a minha condição de paisagem. A
resignação não chega a ser, nesse caso, um incômodo. Apenas uma maneira de
viver conforme meus limites. Imagino, entretanto, o que veria quem me visse
assim, um pouco sério, de óculos, sentado, segurando um guarda-chuva
anacrônico, com uma calma fingida mas bem ensaiada. Quase todos podem se dar ao
luxo de me olhar sem curiosidade, já que sou pouco conhecido – de fato, quase
absolutamente desconhecido – ainda que resista um pouco ao anonimato,
tendo já desistido da fama. Talvez acredite que permaneça em mim algum traço não
anônimo, pessoal, tremendamente íntimo, e, ainda sim, claro e visível, quase
contagiante. Visível, marcante, notável. Evidentemente, é demais, são adjetivos
demais, mesmo para os meus dias de maior entusiasmo e fantasia. Minha diferença
específica, se existe, é quase ininteligível, que dirá visível ou simplesmente
sensível. Todos somos tremendamente parecidos, semelhantes, análogos e sem
graça. E isso incomoda. Mas aceitemos
alguma esperança (sejamos também e enfim semelhantes nessa esperança), porque
ela é simplesmente humana. Cruzo constantemente com pessoas, e gostaria de
saber de suas histórias e escapar do anonimato que nos cerca. Onde está a história, se há?
Não
esqueço o encontro com o casal de cegos na última estação da linha verde.
Aparentemente os cegos apuram de tal modo sua ciência das superfícies que a
crueldade de não ver não os impede de viver, pelo contrário. Mesmo que nesse
tatear eles, por vezes, nos dêem a impressão de uma busca insegura pelo próximo
passo, e nos façam lamentar um pouco cinicamente sua condição, seus passos são
eficazes e produzem um caminho. O caminho conta uma história invisível: vista
apenas de dentro por quem não enxerga. Ali está um infinito de considerações,
estatísticas e medidas e escalas. O casal atravessou o hall de entrada da
estação, desceu dois lances de escada rolante e chegou certeiro na plataforma
pretendida. E desperdiçou alguns passos à esquerda, como querendo precisar um
lugar, estar exatamente ali. Pediram confirmação a uma senhora gorda que
confirmou prontamente e já se mostrava disposta a uma conversa sobre qualquer
coisa para espantar um pouco o silêncio da estação. Mas, para eles que não
vêem, talvez falar seja demais em certas ocasiões, quase como quando nós, os
que acreditam que enxergam, resistimos a ver algo terrível e inevitável diante
de nossos olhos. E, paradoxalmente, quando podemos ver, e apenas nessas
circunstâncias, resistimos à visão: ver
demais pode cegar, fechamos os olhos e
vemos outra coisa. Os cegos declinaram educadamente a conversa e se
concentraram na espera do próximo metrô, aguardando, suponho, poder quase
enxergá-lo.
Quando chegou o metrô não olharam para o trem,
olharam para mim e sérios, mas não aborrecidos. O
mesmo gesto se repetiu na próxima estação, quando desembarcaram: eles se deram
ao luxo de um gesto vão e inútil (não é a exata definição de luxo) voltando-se
para o interior do vagão, procurando-me, dando-me a falsa impressão de que
enxergavam, de que podiam me ver, de que finalmente me encontraram, quando sou
eu quem me procura. Mas afinal seria eu quem procuravam, se é que procuravam?
Como é óbvio, não sei. O luxo também é fazer o inesperado, desde que seja
inútil e vão. Foi o que pensei – eu que
não tenho uma imaginação fértil.
O fato é que não me esqueci deles nas inúmeras
vezes seguidas que quis enxergar e não consegui, ou porque não estava perto o
suficiente do que precisava ver, ou quando, mesmo conhecendo o lugar, me perdi.
Quando
criança me perdi em um dia de finados. O cemitério estava cheio e representava
para mim um mistério, naquela ocasião, um mistério especial: onde estavam
todos, tantas visitas e nenhuma recepção, tantos nomes e nenhum presente. Para onde tinham ido todos, e a
pergunta ingênua poderia ter uma aprência de profundida, mas não era o caso. Só
me perguntava, simplesmente, já que era evidente que não poderiam viver embaixo
da terra, sob o peso incômodo de tantos passos. E lá estava uma multidão, e o
privilégio de uma atenção, de uma lembrança, e de uma flor triste, parece que
receberiam de bom grado. As flores de finados são estranhamente marcadas de um
humor próprio, um pouco triste. Era justamente isso que estava em via de
aprender. Ninguém vivia embaixo da terra, sob o calor de uma laje mal ajeitada
de concreto. Não despertavam em face do
rumor daquela multidão estranha. Simplesmente não viviam, mas ainda sim
podiam contar com a respiração rouca de uma multidão levemente desesperada e
ser evocados e lembrados, como se estivessem presentes, como se pudéssemos
ouví-los. E esse é mistério maior do que aquele de uma vida que acaba: o
mistério de que a vida continua, sem ter por quê. A vida é cega e não vê suas
próprias razões. Hoje, mistério trivial, já não pergunto pelas razões da razão.
E
não frequento mais cemitérios. A preguiça se sobrepôs a minha religiosidade de
fachada, cansei de longas caminhadas e cansei das obrigações sobrenaturais,
que, como não poderia deixar ser, obrigam a muita coisa. Meus mortos se
enterram ou não, mas vagueiam por ai, às vezes dentro de mim, sem os
privilégios de um campo santo. Há dentro
de mim uma campa úmida com nomes familiares e estranhos e uma data ainda
indecifrável. E ainda os encontro entre outros vivos e outros mortos.
Todas
essas considerações vieram à tona um pouco sem querer, desde a última vez que
visitei o apartamento em reforma e, entrando no prédio, o arquiteto me pediu um
minuto para dar uma informação a uma jovem cega. Precisava tomar um ônibus, não
muito longe, pedia ajuda, mas sem lamento, sem reclamação, de um modo quase
imperativo. Foi a primeira lição: os cegos devem saber pedir sem precisar
implorar. Era bonita, morena, os lábios
incarnados e delicados, e tinha movimentos mais pausados, mais calculados
(ainda que precariamente), umas maças do rosto desenhadas, as mãos
tremendamente doces, o que lhe dava uma elegância peculiar, persistente. E
havia ainda algum outro detalhe raro, constante, que não consigo descrever
nem esquecer. Essa moça não me notou, mas ouviu cuidadosamente o caminho que
tinha que seguir e, em um instante, desapareceu na multidão. Deu-me não sei
que aperto no coração (tão verdadeiro que o cliché não me incomoda), ela nunca
me veria (ela nunca me viu) e eu que a vi tão furtivamente, e com o pudor de
quem enxerga e não fala, não a encontraria mais, também não mais a veria, mas
veria tantas outras coisas, pessoas, mulheres, bocejos, carros furando os
sinais, caretas, expressões de susto, rostos amarrotados pela manhã e a dúvida
sobre quem seria essa pessoa, marcas de
sarcasmo, de desprezo, tudo, imagens desinteressantes acumuladas em um canto.
Eis a segunda lição: ver tudo a que se é indiferente, não poder ver o que
preciosamente se deseja ver. A cegueira tem escuridões que mesmo a grande
escuridão desconhece.
O apartamento atrasaria ainda dois meses, o que
me aborrecia um pouco, mas me deu uma óbvia e vã esperança de cruzar novamente
com a cega. Normalmente as pessoas se desencontram, não o contrário. Nunca mais
a vi. A lembrança é um desencontro com o presente (a saudade é um tremendo
desencontro com o presente): urgência de uma presença impossível faz com que me
perca de mim mesmo. Lembro de ti, não te encontro, te procuro e me canso.
Meu
pai envelheceu tarde. Aos quarenta ainda era jovem e imbatível, disposto a tudo
e estranhamente, porque à sua maneira, a paternidade. Sua idiossincrasia, sua
maneira deslocada, o que o fazia tão visível, de uma visibilidade entusiasmada
para nossa timidez, não nos excluía como seus filhos, formava-nos. Meu pai foi
um pai cheio de lições inesperadas mas não enfáticas assim, o que exigiu um
aprendizado mais delicado da nossa parte. Cada um de seus filhos, a sua
maneira, passou a ser especial nos defeitos e nas suas qualidades. Mais nos
defeitos, certamente. Meu pai envelheceu aos 65 anos, resultado de um revés,
teve câncer aos 70, rejuvenesceu aos 73. Hoje quem envelhece sou eu. Nasci
primeiro e desencontrei-me de meu pai. Minha criança envelheceu de calças
curtas e, de repente, era séria demais para uma criança, criança demais para a
seriedade. Hoje sou pai, e mais velho que o meu pai quando pai e olho
pausadamente para o rosto de minha filha (penso no olhar que perdi de meu pai),
mas não a vejo como quem olha uma foto; vejo-a por dentro. E não encontro
respostas para suas perguntas.
Para
a fama a opinião de um não basta, ainda que baste para o amor e para a amizade.
É um adágio, não muito popular, que poderia guardar como resposta para minha
filha, ou para conversas pretensamente interessantes. A passagem sobre a fama
veio-me também da conversa com o arquiteto. Falava-me de um construtor famoso
que deixou certo legado à cidade. Mas a cidade de que falamos foi construída,
derrubada e reconstruída pelo menos três vezes nos últimos cento e cinqüenta
anos, o que significa que todo construtor faz sua fama destruindo o que estava
em pé. E a fama que a posteridade lhe permite é sempre o resto dele próprio
deixado por um outro impiedoso, o
próximo construtor, e testemunha, como ruína, a chegada de uma força mais
poderosa e irresistível que um pilar e uma viga feitos sabe-se lá de que. O
mundo é do concreto armado. O desenho da cidade é um mosaico, é rosto na chuva,
é vento frio no inverno, susto, grito, passo apressado, um desejo superficial:
sem finalidade, de restos superpostos. A fama, um rabisco fora da margem.
A cidade só é compreensível na sua
irracionalidade: temos que destruir tudo. Tudo que existe merece perecer.
Li
a passagem e anotei-a um pouco distraído, pensando, entretanto, não na fama, de
que o anonimato do metrô me salva, mas na amizade e no amor, que é certa glória
e certa honra que resta para os que decidiram que a opinião dos outros não deve
contar, mas talvez e apenas um única opinião. Uma consideração singular valeria
o mesmo que a da multidão? Sim, no caso do amor e da amizade. Não é o número de
opiniões que altera a ordem das considerações, mas natureza da consideração que
modifica seu número. O amor é número impar. A amizade é número par.
Ao anotar o adágio já não pensava em fama,
amizade e amor, formas de consideração em escalas radicalmente distintas, mas
em um labirinto, a cidade, dentro da cidade, nós, labirinto que se constituía
indiferente diante de mim ao tentar, por entre corredores de um prédio antigo,
alcançar meu apartamento: não a saída do labirinto (meu apartamento e mim
mesmo) mas a resignação cabal de que jamais sairei dali. Não espero Teseu. Vivo
em um labirinto que já não é freqüentado pelos heróis de antigamente. A cidade por dentro é labirinto que vemos fora de nós: de dentro para fora
permanecemos no mesmo lugar. Conjunto dos números irracionais, desmedida de
todas as coisas, dentro de ti, o cidade. Quem é aquele ali mesmo? Não é o Minotauro?
Um labirinto? Lugar para não se sair, uma prisão sem grades? As variações que ele apresenta – esquinas dessemelhantes, becos sem saídas, corredores indiferentes – são todas variações de uma permanência: uma lago imenso, um oceano de ondas constantes, um deserto homogêneo, a imagem confusa de uma cidade cinza desigualmente repetitiva, a lembrança de um sonho claramente incompreensível.
Pois
estava em um labirinto. Não havia cegos, não havia lápides, havia o cheiro
úmido das flores de finados: havia o
homem e seu labirinto.
Quando
o encontrei não houve tumulto. Mas de repente veio o medo, e a imagem do medo não
era medo imaginado, era medo real e meu medo o senti crispar pelo corpo e
espalhar-se com suor gelado. Depois serenei com o medo e pudo olhar os olhos do
adversário. E ficou algo de terrível. Não era ele. Era eu. O Minotauro?
Ao
menos 14 pessoas foram assassinadas em São Paulo entre a noite de sexta-feira e
a madrugada deste sábado. A série de ataques seria uma resposta do facção à
decisão do governo do Estado de isolar os líderes. Levantamentos preliminares
apontam que as vítimas são seis policiais civis, quatro policiais militares,
dois guardas municipais, um agente penitenciário e a namorada de um policial.
Ao menos outras 15 pessoas ficaram feridas. Alguns suspeitos foram mortos em
confrontos e outros acabaram detidos.
As ações ocorreram em diversas regiões da cidade e em alguns municípios do litoral e interior do Estado. Os ataques começaram horas após a transferência dos líderes de uma unidade para a sede das Delegacias. Os policiais estariam investigando o planejamento de uma onda de crimes e rebeliões.
No início da madrugada, toda a cúpula da polícia se reuniu no quartel da Polícia Militar. E nada sabiam dizer.
No início dos ataques líderes foram levados às Delegacias, mas o teor da conversa não foi divulgado.
Com a transferência em massa, porém, o governo teria como objetivo desarticular a atuação de facções criminosas no sistema penitenciário -- inclusive na promoção de rebeliões simultâneas: mas ainda havia o Minotauro.
As ações ocorreram em diversas regiões da cidade e em alguns municípios do litoral e interior do Estado. Os ataques começaram horas após a transferência dos líderes de uma unidade para a sede das Delegacias. Os policiais estariam investigando o planejamento de uma onda de crimes e rebeliões.
No início da madrugada, toda a cúpula da polícia se reuniu no quartel da Polícia Militar. E nada sabiam dizer.
No início dos ataques líderes foram levados às Delegacias, mas o teor da conversa não foi divulgado.
Com a transferência em massa, porém, o governo teria como objetivo desarticular a atuação de facções criminosas no sistema penitenciário -- inclusive na promoção de rebeliões simultâneas: mas ainda havia o Minotauro.
E ninguém pretende enfrentar o Minotauro.
Meu beco sem saída era eu próprio a me olhar no espelho:
atrás do espelho já era Minotauro. Serei eu o Minotauro, ou a imagem de mim
mesmo que o espelho não reflete?
Não
via apenas minha própria imagem. Talvez houvesse mortes, crimes bárbaros,
traições, parricídio.
Esta cidade
só me diz não. Não é o Minotauro?
Dormindo mal havia três noites
em uma casa em ruínas, em meio a uma outra série de ruínas (os restos inaproveitáveis dos
outros) sequer lembrava do dia de Juízo Final que os outros enfrentariam depois
do Domingo, dia do Senhor, e se afinal se safariam ou não da espada do Vingador
e de sua sede de tirania. Estava prestes a mudar, e mudar é enfrentar o
labirinto, mudar é reencontrar o labirinto: do que vai, do que fica de nós e
dos nossos restos. A cidade, sem saber, esperava pelo grande medo.
Mudava-me
em uma debandada coletiva dos altos da Apinajés, sob os solavancos do improviso
e do desencontro, cada dia meu daquela última semana assumira o ar de um
levante dramático: livros, cama, mesa, abajur, confissões atrasadas cada coisa
com um destino diferente adiava meu próprio destino, e foi quando me vi
dormindo sozinho em um colchão, em uma casa pronta para ser mal assombrada, por
outros que não os já quase antigos moradores. Mas ainda alheio a tudo, eu mal
conseguia coordenar meu próximo destino, melhor, a próxima parada, olhava e me
perguntava: serei eu o Minotauro? E só agora percebo o motivo profundo da profecia. Houve nisso tudo uma
inesperada comunhão. A minha mudança foi completamente selvagem, o processo de
mudança foi uma longa campanha selvagem, meu último sábado na Apinajés foi um
último domingo selvagem e pagão: tive, sem me dar conta, a suprema experiência
da presa caçada, por antecipação. E já era, ao final, tão diferente de mim
mesmo, meio besta, meio monstro e meio humano, que não hesitaria mais em olhar
atrás do espelho: afinal já ouvia ao respirar o estupor abafado de uma besta de
carga.
E
no domingo, que para mim já era segunda, vivi a certeza serena da derrota. A
cidade é dos mortos. Quando chegarão os vivos? O Minotauro?
...
“Não só criei esses jogos; também meditei sobre
a casa.
Todas as partes da casa existem muitas vezes,
qualquer lugar é outro lugar. Não
há uma cisterna, um pátio, um bebedouro, um
pesebre; são quatorze [são infinitos]
os pesebres, bebedouros, pátios e cisternas. A
casa é do tamanho do mundo; ou melhor,
é o mundo. Todavia, à força de andar por pátios
com uma cisterna e com poeirentas galerias
de pedra cinzenta, alcancei a rua e vi o templo
das Tochas e o mar. Não entendi isso
até que uma visão da noite me revelou que também
são quatorze [são infinitos]
os mares e os templos.
Tudo existe muitas vezes, catorze vezes, mas
duas coisas
há no mundo que parecem existir uma única vez:
em cima, o intrincado sol; embaixo
, Astérion. Talvez eu tenha criado as estrelas e
o sol e a enorme casa, mas já não
me lembro"
...
Como será meu redentor? - me pergunto. Será um
touro ou um homem? Será talvez
um touro com cara de homem? Ou será como eu? - A cidade sou eu, sou eu a cidade, meu amor.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Opereta do Falso Fernando Pessoa II.
-->
Uma esperança, entretanto, me anima. Uma esperança profunda (que também é uma compensação em relação a tantos maus hábitos acumulados). A esperança abra as portas, mas não ensina os caminhos. Poderia chamá-la de qualquer nome. Terá nome inventado. E nenhuma invenção é gratuita e invento obedecendo a ordem necessária dos meus afetos tão díspares. A chamarei Laura, porque já é um belo nome, porque conheci uma Laura que vale um poema, e porque há essa Laura conhecida me chamou e sorriu sem que eu pedisse ou esperasse, uma Laura perdida, jamais encontrada, como tantas Lauras. Essa Laura inventada pela atribuição de um nome é muito mais formosa que a Laura Laura conhecida. Mas como não sei se sua doçura é equivalente a da primeira, (a imagem é uma promessa), sua beleza indiferentemente bela – tremendamente bela – compensa o gosto que não sinto, mas imagino. Ele é a mensagem que espero de uma beleza tal que se ama sem se saber o quê – prosaica na forma, infinita no alcance – e é justo por isso que salvo, conquisto e sequestro sua imagem dando um nome definitivo – e és Laura, e eu, Don Juan imaginário. Minha esperança é, ainda que não ame, imaginar que amo
A timidez sempre me assustou. Era como se eu,
com minha timidez, fosse um amante impossível, como se ela estivesse aí, a me
lembrar, de que não conseguiria cumprir esse destino inventado. Claro que não
acredito mais nas minhas ilusões de juventude, amor, poder, glória, elegância,
distinção. Claro que sobrou um nada incompreensível disso tudo. Meu amor não
resiste aos fatos. Meu primeiro beijo foi em Carla, de quem sempre gostei do
nome e, no geral, sempre achei muito bonita. Ela morava perto de casa e
trocávamos cartas por meio de um amigo, imbuído da função de cupido. Como é
inusitado pensar nisso nesses dias que qualquer informação está sob o
permanente risco de violação. Havia um tempo que os sigilos do amor eram
invioláveis. As cartas sempre chegavam com um certo perfume, que depois vim a
descobrir que era o de um sabonete que ele esfregava no papel almaço. Não sei quanto tempo durou, mas Carla foi a
descoberta do beijo e é dela toda minha pré-história do beijo, todo beijo que
dei traz uma marca daqueles primeiros beijos, daquele aprendizado do beijo. A
ciência do beijo pode resumir toda a educação sentimental necessário ao homem
médio: você aprende o tempo de se aproximar, a geometria do toque e da atenção,
e a proximidade absoluta da experiência do beijo e o silêncio que se segue (o
beijo consumado dispensa a palavra). O mistério do beijo suspendeu minha
atenção para o que viria depois. O beijo (quase) sempre é a melhor parte. Esse
enigma monopolizou minha vida por muito tempo. Parei repentinamente no beijo,
fiz toda uma filosofia do beijo. O beijo foi uma suprema conquista, mas em um
tempo que se barateava o beijo, em um tempo que o beijo foi reduzido a um
formalismo vazio, querer dar-lhe ares de cerimônia, de ritual, era notável
contra-senso. Fui ficando demodê e ultrapassado. O beijo tornou-se sumário,
quase imediato, em um mundo frenético,
quando eu ainda o queria cheio de arabescos e maneirismos. Beijei Ana
Paula, Shirley, Fabiane, Clarice, Maria Luiza, Júlia, Jussara, Alessandra,
outra Carla, Cilene, outra Alessandra, dua Andréias, uma Juliana e quase beijei
uma Marcela, uma Érica e uma outra Juliana, mais Juliana que a primeira, e que
ainda me assombra com a possibilidade de um beijo beijo, o que me traz certos
arrependimentos. De fato, arrependo-me de muitas coisas. Marcela sumiu, em meio
a tantas outras coisas, Juliana se casou, Carla faz de conta que não me
conhece, se é que me vê quando ainda me vê.
E, em meio a um desamparo profundo que senti por volta dos 17 anos, o
beijo passou de minha filosofia a minha religião. Sem saber explicar muito o
porquê, fiquei para trás. Não cresci como meus colegas de escola, demorei muito
a crescer. Vivia ainda as voltas com o beijo. Fiquei congelado em uma
precocidade obsoleta. Dei um último beijo ingênuo em outra Alessandra, um beijo
como eu gostaria de dar, ao meu estilo: cerimonioso, ritual, entusiasmado, em
meio a promessas impossíveis e realizações improváveis. Esse beijo
reforçou minhas observações teóricas e
práticas sobre beijo, mas como não havia investido sabedoria e conhecimento
suficientes no pós-beijo, ele foi uma espécie de teto das minhas aventuras
adolescentes e galantes. Era o menino que recusava o homem. Daí descobri o
pós-beijo, o mistério por detrás do mistério. E isso só foi com Ana Cristina.
A primeira vez que a vi, não me interessei imediatamente.
Sim, ela era bonita e muito, dois pré-requisitos para qualquer olhar. Mas eu vivia
muito vago com meus problemas teóricos ainda em torno do beijo. Começamos a
sair juntos um pouco como quase namorados, tínhamos amigos em comum, mas havia
uma distância entre nós que parecia intransponível. Era a distância do beijo,
posso hoje profetizar. O antes do beijo é um abismo. O depois do beijo é uma
planíce. Foi aí que aprendi outro beijo: o beijo que não é fim em si, a coisa
ela mesma, mas do beijo que é começo e partida, o beijo que abre o parágrafo. E
foram cinco anos de Ana Cristina. O primeiro beijo em Ana abriu-me também
desvãos de uma paixão que eu não esperava – era o efeito novo, na forma de
novos afetos, de um beijo absolutamente novo. Jovens, inexperientes, agitados,
podíamos ser o que quiséssemos. Durante três anos vivemos longe um do outro.
Com a distância, fomos preenchendo o
outro com o que imaginávamos de melhor, de mais terno e carinhoso. Por fim,
houve um grande desencontro. É curioso como hoje penso em Ana. Todos a chamavam
de Cristina ou Cris, eu era o único que a chamava de Aninha ou Morena, por amor
à diferença e ao absurdo, já que ela era loira. Quando terminamos, Ana teve um
curto enlace com meu ex-melhor amigo. O que naturalmente não me deu muitas alegrias. Fiquei talvez
três anos triste, um pouco sem direção, depois de Ana. Depois de Ana, todo o
mundo precisou de uma nova teoria. Viva a injustiça de acreditar que, se não
havia dado certo com ela, não daria certo com ninguém. Senti muita falta dela,
mas de um jeito egoísta: não via como nossa história poderia continuar, parecia-me
mesmo muito encerrada, mas acreditava que ela
deveria voltar para me consolar da nossa impossibilidade. Mas ninguém
voltou. Nunca mais a vi. Subitamente voltei a pensar com carinho nela, como se
pensasse em algo conforme a um contorno definido. Uma Ana que passou, em torno
da qual amei acreditando amar, quando ainda aprendia coisas que, finalmente,
nunca se aprende, nunca se aprende. Poderia dizer que há uma certa Ana Cristina, olhos
verdes, uma graça menineira, delicada, mais que hoje me escapa,
na forma de uma desenho lembrado mas cujos destalhes a escala não permite mais
ver. Não sei mais o que é, sei que ainda está aí, em algum lugar. Deu-me um certo conforto pensá-la segundo o
contorno definido do tempo, passado passado e presente. E se sofri, se houve o pavor de um desconhecido imenso que deveria
enfrentar na sua ausência, de um mundo que, ainda tão jovem, negara-me
definitivamente o amor, segundo as impressões trágica que tinha das coisas e,
em parte, conservo; o mundo não foi tão mau assim, o mundo não foi tão cruel
assim, foi apenas quase indiferente. O amor, ou a impressão do amor, volta sob
diversas formas. E não convém as listas, os arquivos, as anotações de datas, os
registros contábeis. Minha intenção não é
escrever um arrazoado ou um repertório da minhas tentativas em terreno
tão movediço, como se a "experiência" se acumulasse quando a "experiência" só desmente a experiência. As tentativas do amor às vezes nem tentativas são, são quase
tentativas, acúmulo de erros repetidos em nome da esperança tão vã de não mais errar.
Descobrir o mistério de tantas tentativas, o que as une, o amor como uma
deliciosa falta que nos apavora e assusta também não ensina nem justifica nada.
É apenas uma forma um pouco mais cética de esperança. Imagino em mim o menino
que amou e que ama, se ele ainda ama. E se ele ama, o que imagina?
Uma esperança, entretanto, me anima. Uma esperança profunda (que também é uma compensação em relação a tantos maus hábitos acumulados). A esperança abra as portas, mas não ensina os caminhos. Poderia chamá-la de qualquer nome. Terá nome inventado. E nenhuma invenção é gratuita e invento obedecendo a ordem necessária dos meus afetos tão díspares. A chamarei Laura, porque já é um belo nome, porque conheci uma Laura que vale um poema, e porque há essa Laura conhecida me chamou e sorriu sem que eu pedisse ou esperasse, uma Laura perdida, jamais encontrada, como tantas Lauras. Essa Laura inventada pela atribuição de um nome é muito mais formosa que a Laura Laura conhecida. Mas como não sei se sua doçura é equivalente a da primeira, (a imagem é uma promessa), sua beleza indiferentemente bela – tremendamente bela – compensa o gosto que não sinto, mas imagino. Ele é a mensagem que espero de uma beleza tal que se ama sem se saber o quê – prosaica na forma, infinita no alcance – e é justo por isso que salvo, conquisto e sequestro sua imagem dando um nome definitivo – e és Laura, e eu, Don Juan imaginário. Minha esperança é, ainda que não ame, imaginar que amo
Opereta do falso Fernando Pessoa.
Por algum tempo acreditei que amar era um tipo
de dom que me tornava especial. Sentia-me não apenas conhecedor do amor, mas
infalível praticante (quando o acaso assim me permitia). Sentia-me propenso a
amar muito e melhor que qualquer outro, em minha auto-imagem amorosa e isso
funcionava como um consolo tardio a uma série de inabilidades que acumulava na
vida abstrata que foi se inventando em
mim. Poucos amigos, pouca diversão, pouca alegria, uma espécie de solidão
forçada tornada mania, uma recusa se generalizando, um apelo insistente pelo
não. Não seio de onde veio esse não, como forma de vida, mania e deleite, essa
recusa impertinente, mas de repente ela estava comigo por todos os lugares em que
andava. Mas meu hábito soturno, retraído, não era proposital ou nunca se
pretendeu assim. Todo adulto tímido guarda algum segredo de criança. Meus
segredos de infância são as invenções do adulto: minha casa da infância é uma
lembrança secreta. O quarto grande no final do corredor, piso de taco escuro,
as paredes enormes, brancas, uma muralha para uma criança intromedita. Não sei
se o quarto no final do corredor era o meu ou o dos meus pais, não tenho mais
certezas sobre a disposição da infância naquela casa, ou melhor, a ciência
geográfica de uma criança é sempre literatura fantástica. Ora meu quarto era o
do final, e me lembro do esmalte branco da proteção lateral de minha cama que
guardava meu sonho dos tombos que levaria acordado, ora me lembro de uma fresta
de luz no quarto do meio do corredor, a sensação de não apenas estar ali, mas
de ser ali, ainda um estranho em meu próprio mundo. Minha cama de fórmica,
amarela e branca, o banheiro no começo do corredor. Um dia tomei banho com meu
pai, e pedindo para tomar banho frio, lembro da resposta tímida e prudente de
meu pai, evitando contrariar muito os caprichos de um menino de dois anos, o
primeiro filho, “é muito frio filho”. Insisti e logo confirmei, “é frio mesmo
pai”, não sem um certo maravilhamento pela descoberta do frio, ou redescoberta.
Caminhava pela casa, e lembro-me de a conhecer, mas a lembro estranhamente
escura, passando por meio da escuridão do corredor. Havia um quintal todo
cimentado, mas com uma porção de terra reservada para plantar algo que nunca
foi plantado. Uma janela grande e ampla na sala, por onde entrava a maior parte
de luz da casa. Foi nesse mesmo quintal que aprendi a andar de bicicleta com
alguém de quem já não me lembro o nome e era a sua maneira generoso e
voluntarioso. Lembro-me da primeira sensação de equilíbrio, na bicicleta,
descendo pela faixa de quintal que envolvia a casa, toda a resistência em se
equilibrar, a dificuldade das coisas que é, afinal, o ajuste entre sua própria
natureza e nossa própria natureza. Na cozinha, o aquário redondo com dois
peixes alaranjados, de quem eu cuidava com muita displicência e a porta de
ferro e vidro que dava para o quintal. O segredo da infância é continuar
lembrando-se dela. Não sei, porém, quem era esse menino: na história desse
segredo há apenas um estupor, um susto de ser menino naquela casa que já não
existe mais. Hoje parece que sabia o quão pouco tudo duraria porque tudo
mudaria repentinamente, e nos mudamos sem que eu afinal tivesse me acostumado
com a casa e comigo. Na minha outra casa da infância tudo era diferente. Havia
uma quintal selvagem, sem cimento, povoado de bichos. Meus irmãos recolheram o mistério dos lugares para
o mistério de nós mesmos: não sabia quem eles eram, não sabia quem eu havia
sido.
Custava-me ser assim, de modo que procurava em
mim uma compensação para um mundo hostil que, se me habituara, não me
confortava. Vivia desconfortavelmente, procurava uma saída imaginária para
tantos problemas colocados e assim ia elaborando minhas teorias. A recorrente
passava ou voltava, como quase todas, pela infância. Tenho uma imenso acervo de
lembranças da infância: a infância não me abandona. Viagens com meus pais, a
praça do clube do expedicionário, uma chamada de atenção de minha tia (vai ter
baile no salão?), uma capa de super-herói (eu disposto a salvar o mundo da
maldade). E como há maldade, meu deus. A piscina na escola, todos em algazarra
em volta da piscina, correndo, barulho d'água misturado aos sons desencontrados
das próprias crianças (acaso ainda resta alguma palavra inteligível, que
escutei e já não me lembro? De mim, dos outros, da infância?), e o chamado da
professora: vamos, vamos, vamos. Uma visita a fazenda, uma festa junina e um
parquinho vago, escondido em algum canto da cidade que já não existe mais, mas
tremendamente fantástico e sedutor: alguém sorria para mim enquanto estava na
gangorra e deixava a gangorra e para ir ao cavalinho.
Houve um corte abrupto em minha vida: meus
irmãos nasceram, nos mudamos de cidade, senti-me muito sozinho em meio a um mundo
de repente estranho. Sem tias, sem visitas, sem o entusiasmo da uma família
grande e cheia de defeitos, sem o cúmulo de afetos que a exclusividade me
garantia, foi educado apenas pelos defeitos próximos de meu pai e de minha mãe,
o que talvez me faça muito previsível. Passei pela experiência do ostracismo,
fui sequestrado na infância e algo esquecido e quando alguns anos mais tarde
meu pai me esqueceu na escola, em sentido próprio, tive a confirmação da
incompreensível primeira lição da vida. Que ela pode acabar sem avisar. Todos
podem ir embora a qualquer momento. As luzes se apagam. Nos encolhemos. E resta
apenas uma respiração assustada. Somos todos frágeis. Os segredos da infância
se perdem, os recuperamos e os perdemos novamente.
Com os
ponteiros desajustados padeci da mesma tristeza que minha mãe, ficamos os dois
tristes e sem consolo com a mudança. A propensão à tristeza de minha mãe talvez
tenha alimentado a minha, mas seria demais talvez culpá-la de tudo isso.
Reservo alguma originalidade a minha tristeza porque também tenho certos
orgulhos. A estranheza do mundo começou dessa sucessão de fatos inesperados,
ainda mais para alguém com relativa pouca experiência. No interior do país e do
interior de mim mesmo não via as brincadeiras das outras crianças como um
oportunidade de brincar também. Olhava os vizinhos curioso, fazendo festa,
rindo, brincando, ansioso talvez para que me chamassem, mas com uma certa
indiferença difícil, incompreensível. Sabia que não seria chamado. Via-os com a
nostalgia de uma criança de muitos anos, como se eu fosse uma criança proibida
pela minha tristeza e a de minha mãe, pelos problemas doméstico que em parte
entendia, pela falta que me faziam minhas tias. Olhava as outras crianças do
alto de minha experiência fantástica. Havia fantasticamente crescido e, um
senhor de quatro anos avaliava com certo desdém os outros. A tristeza dessas
sequência de acontecimentos alterou minha vida de criança, a tristeza fez a
minha criança recolher-se e ver-se tão diferente, quase estranha a mim mesmo.
Perdida a espontaneidade, viver como criança foi algo como uma espera por
crescer. Nas viagens de ônibus pedia para me sentar sozinho – sempre sobra
alguém em uma família impar. Já me preparava para minhas possibilidades de
adulto. Eu adivinhava, com uma esperteza ingênua, que crescer seria melhor que
viver interditado e à parte, como vivia então. Mas faltava ainda muito tempo
para isso. O que faria durante, digamos, dez ou quinze anos? Aprendi também a
esperar (o que me cansa, agora que sou velho, porque já esperei demais). Os
velhos desaprendem a esperar porque esperaram muito ou porque já não tem mais
tempo para esperar. Para aqueles que a velhice é só a última espera, sem fama,
sem glória, sem sobriedade, sem conforto, a espera é apressada. O cansaço de
que falo não não é aquele de quem fez algo, realizou algo. Mas o cansaço
estéril das tentativas frustradas. Não estou aqui para falar do óbvio: essa
velhice que me toma o corpo, marca o rosto e denuncia a doença. Estou aqui para
falar das aventuras do que acreditei ser as do amor. O amor é antes de tudo uma
fantasia íntima, uma fantasia de salvação. Amar, ser amado, apaixonar-se é crer
no milagre do outro. E o milagre do outro só pode ser uma fantasia. Sei que
você chama isso de outra coisa (loucura, frustração, erro, doença), mas no
final vai me entender. Não vou falar ainda disso. Ela é o último capítulo. A
velhice que vivo, entretanto, tem sim um último consolo: reconcilio-me com o
menino que fui, olho para o homem que tentei ser. Não há alegria nisso, mas uma
satisfação morna, um conforto quase calculado, uma resignação pacífica. O
menino ainda quer brincar. O menino persevera.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Cuesta abajo.
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Diário da guerra do
porco – Diário de la guerra del cerdo.
Medir
a idade das coisas
não é simples. A ideia de antiguidade
pode estar ontem, no último bocejo: quem era aquele ali, escovando os dentes? O
mais estranho selvagem, de outras eras, em roupas de dormir? As medidas das coisas e suas exigências nem
sempre são fáceis. Quanto tempo
se passou no relógio
desde de que ele
despretensiosamente começou a
medir o tempo? O relógio finge, mas
não despreza a passagem do tempo: é uma mecânica consciência de si, que se
comunica com a linguagem pecular do tic-tac, tic-tac. Desde
a primeira frase? Desde
o último minuto? Foram vinte, trinta
segundos. E agora, mais um e outro. Difícil saber
(as horas contadas,
nenhuma soma feita,
resta quanto tempo?) o tempo das coisas.
As coisas talvez se
impregnem de outro tempo.
E o tempo medido e
contado em calendários,
relógios, aniversários
e prestações fica presos nesses aparatos.
Os anos conforme o
calendário, dia a
dia, são uma útil
convenção, e não
serei eu a negar
pela enésima vez a
utilidade das coisas,
de todas as coisas,
salvo as inúteis. As convenções
inventadas, entre tantos
utensílios que vestimos e
dispomos, e tantos cuidados possíveis com a higiene e a saúde
foram certamente bem inventadas.
É preciso mais do que
aceitar esse mundo
dos homens, é preciso
lhe dar vivas e
celebrar. Os meus
pendores revolucionários
param por aí, quer
dizer, por lá, lá
atrás, bem antes de
qualquer revolução,
possível, provável ou
imponderável. Dizer, afinal,
que, às
convenções escapa algo
de essencial, é só
mais um desses clichês
verdadeiros, sinal péssimo
estilo – e vamos
que o tempo passa.
Mas vá lá, nem
tudo na vida e
nos textos são a
pura poesia das esferas.
Há prosa, notícias de
jornal e bulas de
remédio, com o
texto incompreensível dos
efeitos colaterais.
Quanto
tempo passou? Nos olhos da minha filha?
Cada
coisa medida e guardada,
de repente, pode despertar de outra
era geológica, trazendo notícias
de um outra civilização
feita de amores e
suspiros incompreensíveis,
brigas épicas e inesperados
pedidos de perdão.
Não é só o homem olhando no espelho; é o homem atrás do espelho. Estes
repertórios da narrativa
íntima das coisas acabam
preenchendo um tempo
ao oriente do tempo e entre
um traço e outro
do mostrador do relógio
há um infinito caminho
de tangos, milongas e
brigas de amor. O
que é isso? De
onde vem esse vazio
entre os vazios do
que se vive muito
simplesmente como homem,
mulher, funcionário
apressado, cartomante,
pitonisa, cabeleireira, profeta amador
ou dona de casa?
Não
é bem esse meu
assunto (já falei
isso ou deveria me
repetir a esta
altura?). Resisto pouco,
porém, a que tais
digressões. Não é
raro lembrar a trivial
ocasião em que
entre dois ou três
anos passam mil ou
dois mil anos imaginários
e imaginados (a volta,
melhorado, do clichê),
cheios de tantas idas
e vindas, sustos, sopros,
ideias brilhantes, sucessos
possíveis e impossíveis
e meia dúzia de
fracassos retumbantes.
Poderíamos chamar isso
muito simplesmente de
vida – por sua falta
de simplicidade -,
lembrando de que, por detrás
da convenção e dos
lugares das coisas,
sobra um resto de
tudo. Já peço desculpas:
não pretendo ir tão
longe com minha cômoda
metafísica de bolso.
Nem fazer a doutrina
da lógica deste tempo
inútil por detrás da
trivialidade das coisas,
do dia a dia
e dos amores. Tudo
pode ser tão somente a
banalidade da carne,
da nossa carne. Queria
apenas pegá-lo a mão:
o tempo que preenche
o presente convencional
de tudo é todo
o tempo que temos
diante de nós, numa
estranha inversão de
perspectiva: e quando
este tempo repentinamente
se estreita, não é
nosso futuro que diminui,
é nosso presente que
se esmaece. Parece complicado,
mas não é tanto
assim. Os mil anos
que passam entre um
amor e outro, separado
cronologicamente por míseros
ano e meio, vem
exclusivamente dos infinitos
amores diante de nós,
do tempo inesgotável
para o amor, que,
estando adiante, preenche
o presente. E lá
está ele, o amor
– que é bicho instruído
– realizado por aquela
figura fugidia, instável que,
estando diante de
nós, nos surpreende
e nos fixa. Sua
fonte é um infinito
de tempo e de
possibilidades.
Volto,
enfim, ao assunto: e
quando esse tempo vai
cessando, as possibilidades
escasseando, a imaginação
das coisas repousando
subitamente nas cronologia
dos relógios, das goteiras
e dos aborrecimentos
de fim de mês?
A velhice não é
a morte das coisas,
nem um imenso receituário
de remédio, dores, recomendações
de sono, banho e
chinelos,
mas o fim
de toda uma ordem
da imaginação. Parece
dramático e grandiloquente
– volta meia sucumbo
às minhas tentações
metafísicas – ; a
velhice é apenas
trivialmente, modestamente dramática:
tudo que depende do
futuro para estar presente,
cessa para o velho
o tempo cessa de
correr e se tem
o incômodo da eternidade. Alguém já
disse, mas não custa
repetir: não há
vantagem nenhuma na
velhice. Nem há
como lhe resistir. A ela,
nenhum apelo é válido.
Perdemos algo muito
preciso: o tempo
que preenche o tempo
com tudo de tudo,
com a imagem volátil
de todas as coisas
na forma de planos,
sonhos, amores e
vontades impossíveis.
Repenso
o último parágrafo. Demais, infeliz, quase exagerado (o quase para o exagero
talvez já seja exagero). O velho insulado em um presente fechado, submetido ao tic-tac do relógio de
todas as coisas, até que subitamente... Enfim, a velhice também é lugar do
ressentimento e das paixões tristes.
Detenho-me
um pouco nas paixões triste, por cúmulo de tristeza: acomodado em chinelos,
penso menos nos anos que passaram, mais naqueles que não passarão mais. Estou
ficando velho.
(La aceptación de las proprias limitaciones eventualmente es una sabiduría triste). Diario de la guerra del cerdo, ABC.
(La aceptación de las proprias limitaciones eventualmente es una sabiduría triste). Diario de la guerra del cerdo, ABC.
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